terça-feira, 30 de agosto de 2011

récit d´une vie fugitive

[ Se eu pudesse dizer a verdade, talvez nem assim eu diria. Ela disse, em pé,de frente pra ele. Olhando pro chão, tentando recuar, girar o corpo. Ficaram assim calados, parados, em quase gestos. Olhando nos olhos com perdão, como se estivessem cometendo um ato de violência.
... Depois de um longo tempo:

- é que... me parece... me parece que eu desaprendi a falar. não sei o que dizer.
E enquanto isso, ele olhava pro chão. Fez um movimento com o pé direito como se estivesse amassando alguma coisa. As mãos atadas atrás do corpo. em estado de espera.

- mas por que eu preciso te dizer alguma coisa mesmo, ela pergunta. Engraçado, Parece que, neste momento, não te conheço. Como se o fato de ter que te explicar alguma coisa em palavras me fizesse desconhecelo. Ou, ao menos, essas palavras não ditas não são que efeitos deste desconhecimento. Você não acha, ela pergunta.

Longo silêncio. ruídos de carros, de pessoas, vemos uma fila de crianças saindo da escola em fila.

- é porque às vezes acho que não existe silêncio, você não acha, ela diz.

só agora ele fala:
- não. se eu pudesse dizer a verdade, eu diria... e acho que ela existe. mesmo que não exista palavras. e a verdade agora é que talvez ela não existe. ela não pode existir entre nós dois.

ela dá dois passos atrás. mexe a cabeça pros lados. olha o céu. ele avança, solta os braços. eles se olham nos olhos.

- tenho medo, ela diz com uma voz opaca.

a fila de crianças passa por eles, brincando, gritando. Ele pega na mão dela, puxando-a para sairem dali. E caminham sem direção. Entram numa rua calma. as janelas estão fechadas. A manhã avança.

- acho que há dias não durmo direito. não sei, mas tenho medo, medo das palavras. Como saber quando são verdades, ela questiona. Eu queria te dizer uma coisa. Adoro seu jeito de andar. Você caminha rápido, mas com leveza. é difícil te acompanhar. . e você sempre fala muito caminhando, confesso que não consigo prestar sempre atenção, me perco. você sabia disso, ela pergunta.

... ele não ri. eles não se falam, mas caminham juntos lentamente. Eles param diante de uma praça. O sol abre entre grandes nuvens. Uma luz ocre abraça toda a praça. Eles se sentam num banco de frente pro sol. ela sorri procurando o olhar dele.

- de que tipo de verdade você estava falando, ele pergunta. fiquei pensando... já que não nos conhecemos, então seria mais fácil de se dizer as coisas... mas será que você gostaria de ouvir, ele diz.

barulho de sirene.

- eu também fico pensando... será que poderia um dia te dizer alguma verdade nua, eu quero dizer, assim só pele, sem roupa, desnuda. ]


(encontrei este texto num dos cadernos. nao sei exatamente a data mas pode ser de 2009)