quinta-feira, 22 de setembro de 2011

colagem 2

a capacidade de digerir no espaço.






um beijo nessa sua boca




e, depois,




é labirinto.

colagem 1

Daqui de mim,
chuvoso silente manifestante
voz errante nas colinas do sentimento.
ou concerto para arranhar o céu.
faz tempo que eu esqueço do tempo...
Tenho um silêncio que inseta em mim,
o tempo veste tece uma aranha.
e vai tecendo
e gosta de se vestir. maquiar. usar saltos. pentear os cabelos. e caminhar pro aí.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

récit d´une vie fugitive

[ Se eu pudesse dizer a verdade, talvez nem assim eu diria. Ela disse, em pé,de frente pra ele. Olhando pro chão, tentando recuar, girar o corpo. Ficaram assim calados, parados, em quase gestos. Olhando nos olhos com perdão, como se estivessem cometendo um ato de violência.
... Depois de um longo tempo:

- é que... me parece... me parece que eu desaprendi a falar. não sei o que dizer.
E enquanto isso, ele olhava pro chão. Fez um movimento com o pé direito como se estivesse amassando alguma coisa. As mãos atadas atrás do corpo. em estado de espera.

- mas por que eu preciso te dizer alguma coisa mesmo, ela pergunta. Engraçado, Parece que, neste momento, não te conheço. Como se o fato de ter que te explicar alguma coisa em palavras me fizesse desconhecelo. Ou, ao menos, essas palavras não ditas não são que efeitos deste desconhecimento. Você não acha, ela pergunta.

Longo silêncio. ruídos de carros, de pessoas, vemos uma fila de crianças saindo da escola em fila.

- é porque às vezes acho que não existe silêncio, você não acha, ela diz.

só agora ele fala:
- não. se eu pudesse dizer a verdade, eu diria... e acho que ela existe. mesmo que não exista palavras. e a verdade agora é que talvez ela não existe. ela não pode existir entre nós dois.

ela dá dois passos atrás. mexe a cabeça pros lados. olha o céu. ele avança, solta os braços. eles se olham nos olhos.

- tenho medo, ela diz com uma voz opaca.

a fila de crianças passa por eles, brincando, gritando. Ele pega na mão dela, puxando-a para sairem dali. E caminham sem direção. Entram numa rua calma. as janelas estão fechadas. A manhã avança.

- acho que há dias não durmo direito. não sei, mas tenho medo, medo das palavras. Como saber quando são verdades, ela questiona. Eu queria te dizer uma coisa. Adoro seu jeito de andar. Você caminha rápido, mas com leveza. é difícil te acompanhar. . e você sempre fala muito caminhando, confesso que não consigo prestar sempre atenção, me perco. você sabia disso, ela pergunta.

... ele não ri. eles não se falam, mas caminham juntos lentamente. Eles param diante de uma praça. O sol abre entre grandes nuvens. Uma luz ocre abraça toda a praça. Eles se sentam num banco de frente pro sol. ela sorri procurando o olhar dele.

- de que tipo de verdade você estava falando, ele pergunta. fiquei pensando... já que não nos conhecemos, então seria mais fácil de se dizer as coisas... mas será que você gostaria de ouvir, ele diz.

barulho de sirene.

- eu também fico pensando... será que poderia um dia te dizer alguma verdade nua, eu quero dizer, assim só pele, sem roupa, desnuda. ]


(encontrei este texto num dos cadernos. nao sei exatamente a data mas pode ser de 2009)

quinta-feira, 5 de maio de 2011



do acaso fiz um caso.
não descrito num tratado.
nem manchado num bordado.
nem claro e escuro
como linhas num tablado.
cara com coroa,
o caso é claro.
faz sombra em mim.

quinta-feira, 24 de março de 2011

marchinha



Se um dia eu disser que já fui
e ainda não voltei fui buscar uma coisa
perdida por outra coisa, coisa com coisa
pode perder o rabo pra lá ou dar sentimento de brinquedo
sem vírgula perdido por aí no achado vão...

olhei pra você no pensamento e te vi exato,
extrato, passo largo, cada parte. não me lembro
do todo e bem do pouco que ficou. só sei que
ainda te vejo sem buscar. e tem credo na menção.
eu sei que você cabe assim no meu frasear enquanto pontuar.

na pele tanta secura. e continuo longe.
pouso forçado em algum lugar.
têm rachaduras no ar.
fiz um parênteses
a lua cresceu pra dentro de mim.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

La couverture de ton regard



comprei um livro num sebo, e ganhei um cadeau.
E foi como se fosse pra mim:

"Je me souviens
Comme aube du malheur
bercé d'une douce douleur.
Deux jours avant ton départ,
j'étais dans ton lit.
Avant de me quitter, endormi,
tu m'as longuement regardé
comme un paysage aimé.
Dans ses souvenirs que l'on veut graver
tes yeux me sont attardés
pour ancrer mon image figée
dans les méandres de ta pensée.
Un moment sans paroles à échanger
sous la couverture de ton regard
je suis demeuré. "
10/04/2005.


E não sei bem porquê,
tenho essa certeza que foi escrito por um homem.
Não estava assinado.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

parades and changes

nunca me certifiquei de nenhuma metodologia,
porém acredito nelas, agora mesmo;
para tudo há de haver algo que implicitamente
exista fora do acordo in-tácito entre as coisas.

nem chove lá fora, nem chama aqui dentro nada para além
desse frio calado. mas o uníssono da existência clama
uma ressonância, façamos da alegria uma monotonia em reverência.
meu todo se realça nessa difusão de amores colados
nas paredes desse entorno pálido.
cálidos são meus ossos,
que esperam verter e reverter
as fagulhas dos atos em
itinerários dum projeto ibélico.

nem bomba lá fora, nem tiro aqui dentro
nada para dentro de um universo que exclama
a onipotência do secreto mal do extase vivo.

sem linhas ou direções,
é um manifesto sem mãos.
ninguém escreveu isso ou aquilo,
e, portanto, ou por tantas,
somos um, sou,
timbres de um eterno resplendor.