terça-feira, 16 de novembro de 2010

verão póstumo

diante da implicante dúvida,
o silencioso exilado resolveu assuntar
;
chegou aonde não se chegaria a pé.
em pé, estava deserta naquela ilha :
queria que o mar me levasse. me dusa.
sem tentáculos, resolveu salvar o delírio
de seu desacordo. na encruzilhada,
o oráculo apareceu:

não estava ouvindo nada.
a última canção que lhe sussurrava era uma
dos beatles... it's getting better all the time.

bateu com os olhos no rochedo.
deixou cavar o passado nas sombras das árvores.
era um lugar fora de si. se eu soubesse pra onde ir
não estaria aqui, ele disse.
o oráculo calou-se.
e longe fez-se metal no trilho.
resquício de um amor longínquo,
um amor oxidado,
eu vi a carcaça. e não pude salvar.

disse o iching,
uma chuva torrencial.
a imagem do irromper.

mas para onde vão todas
as águas-vivas mortas?

fiz tchibum. e já estou no alto
da escala, esbanjando céu para todos
os ex-ilhados como eu. tive vontade de plantar
flores nas chaminés.

para onde você foi?
o que foi feito do seu sorriso?
devo te desaguar?

respirei na boca
do céu, pulei ondinhas
nos meus travesseiros,
abracei teu cheiro como
se ainda fosse hoje
e resolvi que pode ser diferente.
tudo diferente.

preciso tomar cuidado com
os pensamentos. e não precisou
o oráculo dizer.
tenho calma,
mas tenho vontade.
medito para o que não foi dito
nem sentido.

e que meu coração me perdôe
pelo exílio.
quando o trilho terminar,
não haverá mais correntes.


mas ainda finge
que a esfinge não
se esquiva.
é tempo de estio.
o calor da vida,
pulsando em orações
me faz lembrar quão
trágico é nosso destino
de amar sem navegar.


(escrito em junho de 2010)