terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

um porto


Tinha chovido na véspera, e hoje, já o trem decorria uns tantos vilarejos, as nuvens no céu azul e alguns traços do chuvisco na janela, me incitavam em dar aquela choradinha. não era toda fácil, talvez vinha de algum vilarejo, tão pequeno mas tão sólido lá no cafundó dessa existência. ela teimava em querer sair, estava amedrontada e também apaziguada nesse confim calado e pouco habitado. mas vieram as lágrimas. e não o alívio. este talvez não era do instante. pedi à Senhora da Hora que me acalentasse o peito e que me suavizasse o volume dos sentimentos. e é sempre assim quando me encontro só, de passagem. de um lugar para outro, a alma é fugidia. e fica esse silêncio branco, tão tão incontornável quanto às nuvens. não poderia saber o quê. era a vontade mais velha e incrédula que existe, a vontade toda de viver. dando-me de uma só vez. a vida torna, e entorna, lágrimas, quando a gente as sente percorrer do fundo do olho, descer pela face e apagar-se num abismo. esqueci-me de aludir, porque essa vontade é já vida que segue e a hora passou. quase sem saber que eu tinha destino, uma senhora veio perguntar-me as horas. estava distraída e respondi evasiva. mas ela agradeceu e já seguia seu rumo quando voltou-se para me dizer: que Deus te abençõe. pois não é que a Senhora da Hora havia me respondido ao pedido. e todo meu coração vibrou-se como a um relógio destrambelhado, rodando os ponteiros sem parar. Oh, Deus, queria o peito morno, o hálito quente, o leite e o leito dessa paz repentina dum encontro. poderia demorar-me nesse instante? posso descansar a bravura da minha armadura neste canto já distante? o recanto das línguas mortas, de palavras ocas, de solenidades moles, de ode ao momento é... o saber matinal de que tudo, quase sempre, todos os dias, nos levam a essa presença aturdida e indecifrável que é o nada. esse nada que é todo. valha-me Deus.