domingo, 12 de dezembro de 2010

sem lista

levar as plantas pra passear no terraço,

descobrir que faz sol,

deixar as portas abertas, fazendo 4 graus do lado de fora,

ouvir reggae,

ir à padaria ainda sonolenta, sem sutiã.

sorrir sem almejar,


ter vontade de andar de bicicleta,


não ter crédito pra ligar,


adorar o domingo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

verão póstumo

diante da implicante dúvida,
o silencioso exilado resolveu assuntar
;
chegou aonde não se chegaria a pé.
em pé, estava deserta naquela ilha :
queria que o mar me levasse. me dusa.
sem tentáculos, resolveu salvar o delírio
de seu desacordo. na encruzilhada,
o oráculo apareceu:

não estava ouvindo nada.
a última canção que lhe sussurrava era uma
dos beatles... it's getting better all the time.

bateu com os olhos no rochedo.
deixou cavar o passado nas sombras das árvores.
era um lugar fora de si. se eu soubesse pra onde ir
não estaria aqui, ele disse.
o oráculo calou-se.
e longe fez-se metal no trilho.
resquício de um amor longínquo,
um amor oxidado,
eu vi a carcaça. e não pude salvar.

disse o iching,
uma chuva torrencial.
a imagem do irromper.

mas para onde vão todas
as águas-vivas mortas?

fiz tchibum. e já estou no alto
da escala, esbanjando céu para todos
os ex-ilhados como eu. tive vontade de plantar
flores nas chaminés.

para onde você foi?
o que foi feito do seu sorriso?
devo te desaguar?

respirei na boca
do céu, pulei ondinhas
nos meus travesseiros,
abracei teu cheiro como
se ainda fosse hoje
e resolvi que pode ser diferente.
tudo diferente.

preciso tomar cuidado com
os pensamentos. e não precisou
o oráculo dizer.
tenho calma,
mas tenho vontade.
medito para o que não foi dito
nem sentido.

e que meu coração me perdôe
pelo exílio.
quando o trilho terminar,
não haverá mais correntes.


mas ainda finge
que a esfinge não
se esquiva.
é tempo de estio.
o calor da vida,
pulsando em orações
me faz lembrar quão
trágico é nosso destino
de amar sem navegar.


(escrito em junho de 2010)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sem sair de casa

foi pega de surpresa,
num beijo inevitável.
ficou morta por dois dias,
como que extasiada
por ter sido assassinada por um beijo.
sonhar nem pôde,
viveu longamente a madrugada,
levitando no toque dessa presença.
por que viver dá tanto medo,
se morrer é tão simples?

o álcool, a noite, o sereno
o olhar encontrado a fuga
a luxúria ao deus -dará, alá.

cansei das minhas histórias.
só vivo preu poder me contar.
e, depois,
é assim,
preciso esquecer pra acordar.

e teve também que,
durante dias,
fiquei coçando no osso,
na pele, tudo aquilo qu'eu já posso saber.

eu sei que esfria,
mas gosto cada vez mais da rua.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

banco da praça




jeune fille
"je sais bien que cela peut paraître impossible mais quand même il faudra que cela arrive. Car si je me laissais moi-même choisir, tous les hommes me conviendraient, tous, à condition seulement qu'ils veuillent un peu de moi. Un homme qui, seulement, me remarquerait, je le trouverais désirable de ce seul fait, alors comment saurais-je ce qui me conviendrait quand tous me conviendraient s'ils voulaient de moi? Non, on devra deviner, pour moi, ce qui me conviendra le mieux moi, je ne le saurais pas toute seule.

homme
"même un enfant sait ce qui lui convient."

jeune fille
"mais je ne suis pas un enfant, et si je me laisse aller à l'être, à ce plaisir qui court les rues, je le sais bien, allez, qui est partout à me guetter, je suivrai le premier venu, qui ne voudra de moi que pour ce même plaisir que je chercherai avec lui et je serais perdue, alors, tout à fait."

homme
"mais vous n'avez pas pensé que ce choix qu'un autre fera de lui-même en votre nom pourra ne pas vous convenir et le rendre malhereux plus tard?"

jeune fille
"j'y ai un peu pensé, oui, mais je ne peux pas déjà, et avant de commencer quoi que ce soit, envisager le mal possible que je pourrais faire aux autres plus tard. Je me dis une seule chose: c'est que, si tout le monde fait plus au moins de mal en vivant, en choisissant, en se trompant, si cela est inévitable, eh bien! j'en passerai par le mal s'il le faut, si tout le monde en passe par là."

homme
"tranquillisez-vous mademoiselle, il s'en trouvera bien qui devineront que vous existerez un jour, soyez- en sûre, et pour eux et pour les autres. Pourtant, voyez-vous, on peut, parfois presque se faire à ce manque dont vous parlez."

jeune fille
"quel manque? De n'être jamais choisi?"

homme
"si vous voulez, oui. d'être choisi, quant à moi, serait une chose qui m'étonnerait tellement qu'elle me ferait rire, je crois bien, si elle m'arrivait pour de bon."

jeune fille
"je ne m'étonnerait pas du tout, moi. je la trouverais au contraire tout à fait naturelle. C'est, au contraire, de n'avoir encore été choisie par personne qui m'étonne chaque jour davantage. Je ne peux pas arriver à le comprendre, et c'est une chose, moi, à laquelle je ne peux pas m'habituer."

homme
"cela arrivera mademoiselle, je vous l'assure."

jeune fille
"Je vous remercie monsieur. Mais le dites-vous pour me faire plaisir ou ces choses peuvent-elles déjà se voir, se deviner un peu, déjà, sur moi?"

homme
"sans doute peuvent-elles déjà se deviner, oui. À vrai dire, je vous l'ai dit sans y réfléchir beaucoup, mais non pas pour vous faire plaisir, pas du tout. Je l'ai dit d'évidence, quoi."

jeune fille
"et vous, monsieur, comment le savez-vous pour vous-même?"

homme
"eh bien, parce que... justement, je ne m'e'tonne pas... je ne m'étonne pas du tout de ne pas être choisi de la façon que vous désirez."

jeune fille
"à votre place, monsieur, je me ferais venir cette envie côute a coûte, mais je ne resterais pas ainsi."

homme
"mais mademoiselle, puisque je ne l'ai pas, cette envie, elle ne pourrait me venir que... que du dehors."

jeune fille
"Ah! Monsieur. Vous me donneriez envie de mourir."

fomme
"Moi, particulièrement, ou est-ce une façon de parler?"

jeune fille
"c'est une façon de parler, monsieur, sans doute, et de vous, et de moi."

homme
"Parce qu'il y a aussi que je n'aimerais pas tellement, mademoiselle, avoir provoqué chez quelqu'un, ne serait-ce qu'une seule fois dans ma vie, une envie aussi violente de quelque chose."

jeune fille
"je m'excuse, monsieur."

homme
"Oh! mademoiselle, cela n'a aucune importance."

jeune fille
"Et je vous remercie aussi."

homme
"mais de quoi?"

jeune fille
"je ne sais pas, monsieur, de votre amabilité."


(trecho do livro Le square, de Marguerite Duras.)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

mais que o agora há pouco

porra!
era assim que eu queria dizer
quando te encontrasse, mas não diria,
ficou na imaginação, de um dia ébrio,
na frente do nada, com muitos outros nadas juntos,
e não diria mesmo. por pura educação religiosa,
me viro nos trinta, não digo o que penso,
e fico refletindo, mas esperando
ouvir o que as pessoas querem dizer,
esperando que eu queira dizer alguma coisa.
só porque eu vi alguma coisa que me disse antes
algo do que não era pra ser dito. porque aquilo que
não pode ser dito é muito mais interessante.
porque fica escondido, e quando
sai, é de uma estética do vidente,
da comunicaçào alienígena,
onde todo mundo se entende.
então, parei aqui em frente,
liguei pra um amigo,
nem sabia se era vontade de falar com ele,
ou vontade de ouvir alguém falar,
porque aqui onde não se fala, as paredes
gritam tanto que fico surda de não poder me ouvir,
no espaço só dá audição cúbica,
ainda iria se fosse pintura,
mas não é,
nem pedi pra fazer referência,
foi um pedido de outro que aqui reside.
poxa, vou aliviar:
só vontade d'empurrar as paredes que dá
algum dia, porque fica-se empurrando outras coisas,
com tantos músculos,
alguns já me disseram,
dá um tempo,
mas não consigo,
fica batendo,
cria cria cria,
eu acreditei,
e quando se entrega a isto,
não dá pra voltar e perguntar
por que aconteceu?
só preciso disto,
sendo triste ou sendo alegre,
estar sendo,
podendo,
fazendo,
e não tive vontade de dizer o que?
porque senão teria que fazer
regresso nas páginas do livro,
adoro fazer isto,
mas não conto,
já li algumas páginas milhares de vezes,
mas só por gosto de escutar as palavras viajando,
e imaginar que estaria contando alto
pra alguém que me escutasse.
me dá um tesoura, uma revista e
um caderno preu colar meu pensamento.
é assim que dá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

em tanto


que dia era esse?
ela estava tão parada que as coisas não
se perguntavam da mesma forma.
nada acontecia no imperativo.
estava num lugar estrangeiro,
era a primeira vez que botava os pés
neste canto da cidade,
e nãO era desbravamento.
só uma circunstância. ontem o tarô me disse:
somos um acúmulo
e desácumulo de cascas.
às vezes a leitura me influencia.
hoje estou descascada,
mas não sou limão.
e desconheço minhas doçuras.
sou uma árvore desapegando frutos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

retrato sem trato

parece que para, mas só redimensiona.
parece que cala, mas é chuva na madrugada.
e se exala alguma aspereza, é que embaixo da terra ainda guarda incerteza.

não é bruto,
não é truque,
não é entulho.

só embrulhada, mas sem enfeites.

pode ser pedra bonita
que pede presença de rio,
e sente que é estrela cadente.

e se fica buscando no ontem
a história de um presente,
é porque há anos luz
que vive potente.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

falésia

e quando o vazio faz cama nos poros,
acordo com olhos mornos de desejo,
rastejam larvas de uma poça nos pés.

foi assim que vi o verde que nao estava la.

abri uma pagina qualquer,
nao procurei uma resposta,
livreime ao ausente.

la vie est ailleurs.

no intervalo entre o que vivo
e o que quero viver,
o teto desabafa suas rugas,
o chao comemora suas fantasias,
pendula no tic-tac braços pernas e meras alegrias.

longe dos homens, abraço a coragem e o medo.
na rocha branca que se desespera no mar,
realço meu contorno e me apago no pensamento.


vou atras do poente
esperar,
somente.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

em frente

a noite avança,
e parece dia no sentimento.
como criança olhando pra onda....
e a cada segundo, faço uma descoberta.
so preciso caminhar....

por exemplo:
pra fortalecer é preciso amolecer.
e descobri assim, olhando sem olhar.
é na vibraçao da pegada, no afago
do ser distraido e atraido.
sem acentos.


estava passeando, nessa rua
e vi um casal de irmaos que andavam
de patins. a menina era mais velha e ficava atras,
o irmaozinho ia na frente sem nenhuma preocupaçao.
e ela nao parava de dizer, cuidado
aqui é perigoso, nao faça assim, e nao faça assado,
perto de chegar a uma esquina

lugar da curva, sempre tem ruptura:

ela disse pra ele diminuir
mas ele virou e, depois da curva era uma descida,
e ele acelerou. eu pensei: acho que ela vai cair.

e ela caiu.
o menino seguiu a descida, sem freio ou medida.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

dois


4.

Eu quebro o espelho

Pra ver minhas dobras.

E dobra quebrada dói.

No sentimento do caco

Tem estridência.

O metal brilha nos ossos.

Faço oferta de opaco nas curvas.

Um canto tem sombra.


5.

Lágrima é um grito...

Ou um sussurro.

Às vezes saudade grita,

E às vezes sussurra.

Qualquer. Bem-me-quer.

Jasmim tem perfume de lembrança.

Maresia é criança que venta.


6.

Na planta, escorreu um amor de antes.

Louva-deus, que esse amor se instante.

Na água-viva, morte é redundante.

Redondei nosso amor pra longe.

Na beira do trilho,

como borboleta pra te voar perto de mim.

seu nome faz exílio em minha boca,

seu canto faz meu vôo tirano:

minha asa golpeia teu sorriso.

teu olho tem tudo que preciso,

só falta mergulhar.

verão póstumo

diante da implicante dúvida,
o silencioso exilado resolveu assuntar
;
chegou aonde não se chegaria a pé.
em pé, estava deserta naquela ilha :
queria que o mar me levasse. me dusa.
sem tentáculos, resolveu salvar o delírio
de seu desacordo. na encruzilhada,
o oráculo apareceu:

não estava ouvindo nada.
a última canção que lhe sussurrava era uma
dos beatles... it's getting better all the time.

bateu com os olhos no rochedo.
deixou cavar o passado nas sombras das árvores.
era um lugar fora de si. se eu soubesse pra onde ir
não estaria aqui, ele disse.
o oráculo calou-se.
e longe fez-se metal no trilho.
resquício de um amor longínquo,
um amor oxidado,
eu vi a carcaça. e não pude salvar.

disse o iching,
uma chuva torrencial.
a imagem do irromper.

mas para onde vão todas
as águas-vivas mortas?

fiz tchibum. e já estou no alto
da escala, esbanjando céu para todos
os ex-ilhados como eu. tive vontade de plantar
flores nas chaminés.

para onde você foi?
o que foi feito do seu sorriso?
devo te desaguar?

respirei na boca
do céu, pulei ondinhas
nos meus travesseiros,
abracei teu cheiro como
se ainda fosse hoje
e resolvi que pode ser diferente.
tudo diferente.

preciso tomar cuidado com
os pensamentos. e não precisou
o oráculo dizer.
tenho calma,
mas tenho vontade.
medito para o que não foi dito
nem sentido.

e que meu coração me perdôe
pelo exílio.
quando o trilho terminar,
não haverá mais correntes.


mas ainda finge
que a esfinge não
se esquiva.
é tempo de estio.
o calor da vida,
pulsando em orações
me faz lembrar quão
trágico é nosso destino
de amar sem navegar.


(escrito em junho de 2010)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

borbulhando

a varanda me realisa.
amolei bastante as idéias.
ficaram finas como o vento que corta
a manhã cinza. não sei se vou ou se fico.
e durmo com isso.
parece que vai chover.
todo dia aparece um canto novo
no canto do meu olho.
guitarra elétrica.
escondi no abajur um segredo.
abati meu dia com fervor sanguinolento.
o fá estourou. fica a viola a chorar em silêncio.
como eu, objeto voador todo dia identificado.
tenho três nomes. costuro minha vida com
linha de rede, pesco um, e jogo dois.
sou peixe-gente.
me disseram sereia. tocou a sirene.
o tempo todo, bate no meu peito
algo que desconheço.
será isso o desejo?
a repetição de algo que não se vê, mas
quando respira junto...
acelerou. e já estava em outra onda,
em outro mar.
por quê então você bate na porta
e não entra?

sábado, 1 de maio de 2010

para o sol na varanda

acordei com uma vontade danada de nada.
limpar o banheiro, fazer café, lavar roupa, tomar banho,
trocar o lençol, lavar calcinha, torcer a cara, o jeito, o ócio,
os vícios... de repente, a louça pode ficar suja mais um pouco.
olhar no espelho. olhar o que o espelho olha. vontade bendita
de ser gente. ser gente, sem pessoar. às vezes caminho, me troco em
pessoas. me dispo, agrego novos acessórios, mudo ritmo, respiração.
às vezes não. quero só sentir que gente fica. aonde está. cada um, mais gente.
do formigueiro, vê-se a mata encantada?
da pessoa, eu vejo cada passo, a marcha.
de gente, vejo a batida sonando um só.

segunda-feira, 22 de março de 2010



porque eu quero sonhar sem imagens.

segunda-feira, 1 de março de 2010

às flores

meu crisântemo (adorei a sonoridade desta palavra e, na verdade, nem me lembro da forma desta flor, mas deve ser bela e o nome me veio à cabeça logo após ter pensado em você... ando um pouco dadaísta),

tenho te sentido estes dias... sua imagem agora talvez não seja a de sempre, estou perdendo definições, mas vejo articulações, vejo seus membros, se projetando e criando um espaço maleável e frutifero ao redor. porque é da sua natureza. praseificar o espaço. adentrá-lo como em um campo de flores. estou com saudades-raízes, ficam me sustentando na gravidade, meus pés, meu pé de você e de tantos outros. tenho sabido mais por aonde eu sou. depois de passar no funil da nova idade, aceito mais o que as novas configurações podem me dar. este espaço, meu espaço-interno, minha fome de criar e de nãos saber porquê. por que se faz arte mesmo? ou porque a arte se faz? a grande obra, a vida... me encarrego sempre dessa missão, botar holofote nos detalhes... mas às vezes perco o ar. parece que virgem tá apostando no meu terreno. no meu solo. vou pegar tudo no ar e fertilizar. será que consigo? precisava te falar, te beijar aonde precisamos, antes disso tudo, antes das aparências, antes da pele. o pássaro voa voa, mas vem fazer seu ninho na árvore, num ramo, num lugar quente, num lugar seguro... isto tudo me habita. tenho acreditado mais nestas imagens que me po-voam. e em não deixar que elas se transformem apenas em resíduos. esperar menos para esperar mais.

beija-flor

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

um porto


Tinha chovido na véspera, e hoje, já o trem decorria uns tantos vilarejos, as nuvens no céu azul e alguns traços do chuvisco na janela, me incitavam em dar aquela choradinha. não era toda fácil, talvez vinha de algum vilarejo, tão pequeno mas tão sólido lá no cafundó dessa existência. ela teimava em querer sair, estava amedrontada e também apaziguada nesse confim calado e pouco habitado. mas vieram as lágrimas. e não o alívio. este talvez não era do instante. pedi à Senhora da Hora que me acalentasse o peito e que me suavizasse o volume dos sentimentos. e é sempre assim quando me encontro só, de passagem. de um lugar para outro, a alma é fugidia. e fica esse silêncio branco, tão tão incontornável quanto às nuvens. não poderia saber o quê. era a vontade mais velha e incrédula que existe, a vontade toda de viver. dando-me de uma só vez. a vida torna, e entorna, lágrimas, quando a gente as sente percorrer do fundo do olho, descer pela face e apagar-se num abismo. esqueci-me de aludir, porque essa vontade é já vida que segue e a hora passou. quase sem saber que eu tinha destino, uma senhora veio perguntar-me as horas. estava distraída e respondi evasiva. mas ela agradeceu e já seguia seu rumo quando voltou-se para me dizer: que Deus te abençõe. pois não é que a Senhora da Hora havia me respondido ao pedido. e todo meu coração vibrou-se como a um relógio destrambelhado, rodando os ponteiros sem parar. Oh, Deus, queria o peito morno, o hálito quente, o leite e o leito dessa paz repentina dum encontro. poderia demorar-me nesse instante? posso descansar a bravura da minha armadura neste canto já distante? o recanto das línguas mortas, de palavras ocas, de solenidades moles, de ode ao momento é... o saber matinal de que tudo, quase sempre, todos os dias, nos levam a essa presença aturdida e indecifrável que é o nada. esse nada que é todo. valha-me Deus.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

envelope


oca.

fiz aquela minha torta preferida
e não pus o recheio.

na hora da mágica,
foi o coelho que cuspiu uma cartola.
e dentro da cartola era um buraco.

cruzou 1000 pessoas.
sentou ao lado de 7 mulheres durante o dia.
sentiu o bafo de um rapaz que era até bonito.
ouviu a respiração de 5.
e sentiu que o casaco era um mundo.

o silêncio não foi deposto,
ele era o rei no jogo.

engoliu todos os olhares
e cegou a estetização do entorno.

para falar,
aperta-se um botão.

depois desaperta.
e se aperta com o que existe.

10 instrumentos diferentes pra cobrir o frio.

esvaziou todos os armários e gavetas,
desentupiu o ralo...

e ainda mora.

domingo, 17 de janeiro de 2010

pode ser

nenhuma pista se desviou da trajetória da palavra.
algum sinal esquecido no veludo do silêncio faz
manchar o descanso da criação. parada, faço a música dançar.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

caminho




"Nunca dê ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que te desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como a um apaziguamento dos litígios e a cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos."


trecho do livro Cidadela, de Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 2 de janeiro de 2010

pois então... vamos


o viajante universal,
com calma chega ao leito,
o descanso é de muito tempo
pois as lembranças são de muitos espaços,
ao mesmo tempo.
cada passo é uma respiração,
aspira-se à juventude a cada dia do crescimento
de um fruto.
bato à porta do recolhimento e abro as asas
para o novo, renovando camadas e julgamentos.
se não vens, nós vamos... à vida.