quarta-feira, 8 de abril de 2009



Estava quente. Ela já podia olhar sem medo. O homem parado. O homem em noir. Não queria falar. Nem ele. Nem ela. Ele falava sem falar. Talvez por risco da timidez. Talvez por queda da insensatez. O sol ainda estava alto. O sol estava lá. Ela não tinha medo. Guardava uma alegria inexistente. Guardava uma lucidez implacável. Enquanto sorria. E ele estava lá. Ao seu lado. E os pássaros,  era possível ouvi-los. E as flores. E tudo parecia estar realmente lá. Mas nada existia além dessa esperança branca. E um calor nas pálpebras. Pensava na dilatação das coisas. Sem pensar. Ela não pensava. 
- Me espera, ele sussurrou.
Ela já partia. Sem querer ter para onde ir. Ele também não queria dizer. 
- e para onde nós vamos?
Por que as coisas parecem tão leves quando não são? É o seu olhar. 
- Eu não tenho nada para segurar.
- Segure esta flor. 
Ela andava sem olhar pra trás. A cada passo realizava a cor de ses cabelos. Imaginava seu olhar, sua boca, seu olhar e sua boca. E nada disso importava.  Eu preciso atravessar. Preciso atravessar o parque, ela se repetiu. Sem porquê. 
- Por que?, ele gritou. 
Eles não se conhecem. Ele e ela nunca vão se conhecer. Mesmo no absurdo do imprevisível, é preciso atravessar, ela pensou enquanto olhava para uma flor. Rosa e pálida. E como ela é viva e forte. 
Ela voltou. E o abraçou. Um abraço cálido de quem se precisa sem saber. É o grande mistério, ela pensou. Quando é que eu quero mesmo estar sozinha? Não pense, não pense. Não fale, por favor. A mão dele nos cabelos dela, entrando suavemente na sua nuca. Um afago. Ela fecha os olhos. Ela não pode vê-lo. Ela gira o tronco, levando uma mão ao rosto. Um afago invisível. Instante que não pode durar. Eu queria fazer uma homenagem a tudo que eu não tenho e a tudo que eu não quero ter. Estou me misturando. 
- Veja como eu faço isso bem,  mostrando-lhe a face de olhos fechados. 
- Mas você não sabe e nem vai saber. Permaneço misturando. 
Ela ri.  E o olha como se ele fosse puro de alguma pureza da qual ela não pudesse se adivinhar. Apenas entender.
- Mas por favor não me desminta. Eu não poderei acreditar. 
eu não poderei acreditar. Não me fale de sofrimento. É de sofrer. Não me fale. Mas eu não posso dizer. 
Ele canta uma canção. E agora ela abre os olhos. Não cante para mim. O sol ainda está lá. E começa a esfriar. Os dias são longos. Tento permanecer. Estou sempre tentando permanecer.