terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

fábula para um dia chuvoso


a porta se fechou. ela, em pé, olhava a porta. e só a porta. porque agora estava sozinha.
e, como se naquele pequeno lar, tudo se transformasse em possibilidade, em espaço 
atrás daquela porta. e a chuva que caía abundantemente lá fora, também era o lar. e 
os passos que escutava dele descendo as escadas, também era o lar. e ele era o lar. 
olhando para a porta. tudo era tão possível agora estando sozinha que vivia um medo 
da alegria imensa de poder ser, ali. foi até a janela da cozinha e tentou respirar o cheiro 
da chuva. mas não aquele cheiro. o cheiro de outra chuva. a chuva que caiu um dia 
quando era cirança e via a poeria subindo. aquela chuva que era brincadeira, era piscina, 
era banho, era também o abrigo da família. a chuva. ela sentiu o cheiro da chuva do sertão.
e também era o lar. e agora ela podia chorar. a chuva. a tristeza amiga, companheira. 
a incerteza. e ela chorando olhando a chuva. lembrando de como era olhar a chuva na 
varanda de outro lar, em outro país. sozinha. "deve-se estar sozinha para poder ver
 a chuva" pensava enquanto olhava as janelas dos outros apartamentos. e gostava de
 encontrar, de repente, algum vizinho em seu respectivo lar, fazendo alguma coisa na cozinha. 
"por que as pessoas são tão comuns?" ela pensou.
... e olhava para os lados na rua, para os olhos que não se perdoam, olhava porque 
agora podia só olhar. e encarava as pessoas, devorava as faces. grandes máscaras 
do assombro humano. o cotidiano. ainda chovia. e reparou que agora têm pássaros.
pássaros migradores, disse alguém. e tenta sentir o cheiro do mar e não pode. 
o cheiro do mar está impregnado na carne, não invade, é amálgama. e ele transcende 
às ruínas. tudo isso ela pensava, enquanto a cidade se acendia. e a chuva descansou. 
um sol veio aquecer as faces dos prédios, das calçadas, daquela estátua já dourada, 
daqueles passos ritmados pelo frio. e nenhuma conversa:
eu sei que posso chorar aqui. e desde pequena eu choro muito "sem motivo" dizia 
ao pai que vinha lhe sondar. "eu não sei, acho que porque é domingo. domingo dá 
vontade de chorar, é isso". e ela era muito pequena. e chorava no banheiro. 
ela até riu de pensar que isso sabia fazer muito bem, chorar... e pode ser um
choro de desejo? e agora ela chora sem se perguntar. ela sente. 
"será que amarei amanhã? será que saberei do amor?"
fez o mesmo trajeto ao sair de casa e reviu o homem que vem dormir na
porta daquele prédio inabitado. Há dias que ele não aparecia. E ela fica tão 
curiosa de saber o que ele faz quando não está lá. Quando ele está ali, ele a 
protege. Eles se olham, se vêem, e ela tem a impressão de que eles são 
semelhantes.Ele é um homem que olha.  Boa noite, durma bem, ele disse.
hoje ela quer sonhar. com a chuva, o mar, o beijo curto, 
o beijo-criança-do-homem-feito, o olhar estrangeiro, o mar, 
a pele ardendo, o pé descalço, o pai esquentando a mãozinha,
 a mordida de mosquito... ela não se lembra de nada. a menina. 
mas ela ainda sente a picada. o cheiro do pai, os morcegos na árvore de casa,
 a limonada. os nomes inventados, ela sozinha sonhando com um amor, 
que tinha um nome inventado. ela mesma nunca usava o próprio nome 
quando brincava. e nunca era brincadeira. a vida nunca foi brincadeira. e o silêncio.