segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

roteiro para um filme-vago ou para um film-vague


um carro parado no meio do deserto. olho para os lados. sinto de perto (uma câmera me filma, sempre, me parece) os lábios racharem. ouço o vento. e só o vento. forte. o vento forte não se cansa de ouvir. forte em mim. uma indecisão angustiante. "não tenho ferramentas para nada disso", eu penso. e não me falta vontade de seguir em frente. de amar em frente. mas tenho pouco combustível. e o vento é frio. as mãos congelam. e tudo isso eu vejo de perto. a areia fina no meio do. aonde? a areia fina que desloca o lugar, coloca o lugar fora do lugar. a areia é fria. e não posso sentir. até um vale lá no fundo do olho, eu vejo de perto. e eu posso consertar? o olho, o sentimento, o momento? após 20 segundos: ando lado a lado, mãos, sorrisos que quase não escuto, palavras que não entendo. estou acompanhada e continuo no deserto. contínuo deserto. eu continuo. e não consigo mais olhar. quero correr e não corro. vejo uma placa. um buraco. um céu. um beijo perdido nu. uma respiraçào incendiária ao meu lado. e vivo sonhando. não é o futuro que me preocupa, quem disse? é o presente, eu disse. ou pensei sem dizer, quase-disse. o tanque está cheio agora. estou saindo daqui. e, ouve o grito. (melhor não ouvir, veja, grito em off, grande plano). ele não é meu. é um grito-sem-dono. (e passa um cachorro ébrio de tantos gritos não ouvidos nem vistos). é um grito sem doma. vai ser gauche na vida. faça alguma coisa que me assuste. mais. e mais. e aind amais. amares. o assombro no fim dessa estrada sem fim. fim.
enquanto arranjava as flores no vaso, lembrei desse episódio. trajis-tória. e enquanto mexia nas flores e via as cenas passando, se desenhando, se enquadrando. tudo não passava de um signo. volumoso. pelicular. e como os signos têm sentimentos... eu pensei. vou guardá-los. e quando as flores murcharem?