quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

pas plus qu'un jour





o filme tá feito, ou quase. essa coisa de fazer filme tem vários finais. e vários começos. um dos começos já foi até postado aqui em forma de carta. era a semente, a vontade, a história já tomando encontro com o outro, esse aí ao meu lado. e nesse começo questionava mesmo um título, já no começo a gente quer dar nome às coisas. essa coisa de aludir que tanto clarice falava. e o mais engraçado é que de tantas voltas, o primeiro nome é o que ficou. difícil a tradução para o português: não mais que um dia, um dia apenas, apenas um dia, somente um dia, ou...em francês parece dar outra idéia porque esse "pas plus" é muito referencial, corriqueiro; eles têm mania de botar o não em tudo, mesmo pra dizer que é bom. e o plus é mais, mas também pode ser menos. nesse ponto, tem concordância com o português, como "nunca mais", e até no caso aqui "não mais". só que parece mais pesado em português, por não ser tão usual. enfim, fica a reflexão. faço esse comentário aqui como um diário de bordo que nunca teve lugar. difíceis escolhas, como a de atuar no filme por exemplo. atuar e dirigir é difícil. se colocar assim, entrar numa postura, incarnar os gestos. é uma apropriação muito grande de uma coisa q não quero dar nome. a dificuldade, ou a resistência tamanha em escrever um roteiro, ou um roteiro dentro das normas. e depois as dificuldades no pós-operatório, o problema de cores, o problema de captação de som... tudo valendo muito como exercício. confesso que fiquei bem feliz depois... por outro lado, a convivência com a equipe, em todas as etapas, o envolvimento de cada um... só isso já fez valer a pena fazer esse curta. capturei uns frames do filme pra postar aqui, queria contar, dessa forma meio sem estilo, mas queria contar... quando terminar mesmo eu mostro pra vocês. este post vai pro jonas waks, o companheiro que dividiu o quadro aí comigo.





segunda-feira, 2 de novembro de 2009

posta


está tudo atrasado dentro do relógio.
e não são os ponteiros que se atacam pra ver quem chega antes.
o segundo ou o minuto, não têm importância.
e sim a existência de um lugar pra chegar, de um número pra atingir.
fui parar lá no 23, mas eu ainda era dois meses antes.
engravidei do tempo, nove luas, nove guerras, quantas noites de espera.
e só ficaram os números. sentei no dois. adulei-o, mesmo sabendo
que era um ingrato e traiçoeiro. mesmo no dois, ainda era um.
estava atrasada. estou sempre em avanço do que não pode acontecer.
rezei pro três aparecer e me mostrar a face de cada moeda.
me levar pra passear na cidade.
a cidade me prostituiu. me expus nua diante diante de tanto regresso.
cada poste, um dia eu chego lá. mas não sou ponteiro e fico tonta
com tanta obediência. preciso do outro para estar sozinha.
olhei novamente pro relógio. perdeu o sentido.
do redondo, da redoma, perde-se a doma. a própria dona.
vou tratar da sede do entusiasmo, para que não fique cansada
antes de chegar.
vou atravessar toda a cidade. mas só em contratempo.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

VIII La rupture



Il rêvait de faire du cinéma. Je rêvais de traverser
lÁmérique du sud avec lui. Pour l'inciter à me suivre,
j'avais proposé que nous réalisons durant le voyage un film sur notre vie de couple. Il avait accepté et, le 3 janvier 1992, nous quittions New York dans sa cadillac grise en direction de la Californie. Neuf mois plus tard, à San Francisco, alors que nous n'avions pas encore dit le mot "FIN"sur la pellicule, ma main, tatônnant sous le siège de la voiture pour l'avancer, a trouvé un sac en plastique noir. Je l'ai ouvert. Il contenait des lettres, vingt-quatre précisement, écrites de la main de Greg, adressés à une certaine H., et expeditées - le tampon de la poste faisant foi - dans le courant de l'année 1992. Pour des raisons que j'ignorais, elles étaient revenues en sa possession et il les avait cachés là. Je les ais lues. J'en ai volé deux. L'une, parce qu'il disait: "Je serais libre en octobre". L'autre, pour cette phrase: "... avec sophie, j'ai cet enfant qui n'aurait jamais pu exister sans la passion que j'ai pour toi". J'avais donné à Greg la possibilité d'exaucer son rêve le plus cher, et c'est une autre qu'il remerciait. Quelques jours plus tard il me remettait une lettre: "Sophie, j'ai toujours pensé que tu entrerais dans ma vie. Je veux que tu saches que je t'aime et que tu es devenue la chose la plus précieuse à mes yeux." j'en doutais. Et je décidai de lui donner raison: il serait libre en octobre.

(Ele sonhava em fazer cinema. Eu sonhava em atravessar a América do Sul com ele. Para convencê-lo de fazer essa viagem comigo, eu propus de realizarmos, durante a viagem, um filme sobre nossa vida de casal. Ele aceitou e, no dia 3 de janeiro de 1992, nós deixamos Nova York na sua cadilac cinza em direção a Califórnia. Nove meses depois, em São Francisco, enquanto tentava avançar o banco do carro para frente, encontrei um saco plástico preto embaixo do banco. Eu o abri. Dentro do saco encontrei cartas, 24 mais precisamente, escritas pela mão de Greg, endereçadas a uma certa H., e expedidas- o carimbo do correio confirmava- no ano de 1992. Por razões que eu ignoro, as cartas voltaram para ele e ele as tinha escondido lá. Eu as li. Eu roubei duas delas. A primeira porque dizia: "eu serei livre em outubro". E a outra por esta frase: "com sophie, eu tenho esta criança que não poderia jamais existir sem a paixão que tenho por você." Eu dei a Greg a possibilidade de realizar seu sonho mais profundo e é a uma outra que ele agradece. Alguns dias depois, ele me enviou uma carta: "Sophie, eu sempre pensei que você entraria na minha vida. Eu gostaria que você soubesse que eu te amo e que você se tornou a coisa mais preciosa para mim." Eu duvidei. E decidi lhe dar razão: ele estará livre em outubro).


Sophie Calle

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

começo

viu a cara espantada daquela que aplaudia no fim daquele ato.
não era um visage qualquer, era aquele e não outro.
é nessa busca que o olhar encontra aquele e não esse.
as cores apagaram e viu só luz e sombra.
uma mistura de intensidades, de oposições.
é nessa sinfonia de extremos que começou
a tocar aquela música, acompanhada da expressão assustada
e enfeitiçada daquela que olhava e aplaudia.
o que ela aplaudia?
a mão e o rosto.
era como que o susto da distância
e a capacidade de digerir no espaço.
depois passeava pelas ruas e todos
os postes incendiavam a cidade como
a um palco de teatro.
ela era um personagem.
mais viril do que antes que desconhecia
a si mesma.
não pôde disfarçar a delícia
da ausência.

sábado, 10 de outubro de 2009

uma dose

Fado: vc está ai?

eu: sim e vc?

Fado: nao....

:)

eu: pq?

Fado: um beijo nessa sua boca

18:24 eu: oba..... adorei. olha... tive uma ideia. qdo tiver mais tempo te falo...

18:25 Fado: fala

eu: ah.. eu também quero dar um beijo bem demorado...

Fado: hum....gostoso

qual é sua ideia brilhante?

18:28 eu: tlvz nao seja tao brilhante mas eh boa... agora naum dá to indo. seria legal a gente conversar sobre a ideia... mas outro bj dá.....outro....inté.

outro...

18:29 Fado: inté!

terça-feira, 6 de outubro de 2009


olhar pra ela causa
cor aqui no peito,
provoca o amor
que só espreita,
pinta a boca de tristeza,
e, depois,
vai pra rua cheia de certeza.

domingo, 4 de outubro de 2009

sinceramente


são pétalas que caíram.
ficou o talo talhando uma
um novo formato.

no meio daquela floresta
já tão tateada e ateada,
percebe-se o inusitado.
percebido, ele sempre vem disfarçado de conhecido.

bom dia, como se estivesse dizendo
pra vendedora do pãozinho fresco
que conheço há anos. o pão e a vendedora.

mas não é desse inusitado repetido.
é do inusitado que vai-se permeando
e quando dá-se já é coisa viva,
mas sem definição.

é nessa porção de mata
que adentro. com cautela
e euforia. tesão e proteção.
o caule criando energias
e instalando seus artifícios
para cultivar essa nova
velha família dentro do coração.

eu não disse que não iria.
eu só sinto que vou devagar.
e não é arriscado.
é o antigo que estava esquecido até então.


miles davis tocando.
os champingons na manteiga, é bom.
je t'attends.

domingo, 27 de setembro de 2009


Mieux vaut n'penser à rien
Que n'pas penser du tout
Rien c'est déjà
Rien c'est déjà beaucoup
On se souvient de rien
Et puisqu'on oublie tout
Rien c'est bien mieux
Rien c'est bien mieux que tout
Mieux vaut n'penser à rien
Que de penser à vous
Ça n'me vaut rien
Ça n'me vaut rien du tout
Comme si de rien
N'était je pense à tous
Ces petits riens
Qui me venaient de vous
Si c'était trois fois rien
Trois fois rien entre nous
Evidemment Cà ne fait pas beaucoup
Ce sont ces petits riens
Que j'ai mis bout à bout
Ces petits riens
Qui me venaient de vous
Mieux vaut pleurer de rien
Que de rire de tout
Pleurer pour un rien
C'est déjà beaucoup
Mais vous vous n'avez rien
Dans le cœur et j'avoue
Je vous envie Je vous en veux beaucoup
Ce sont ces petits riens
Qui me venaient de vous
Les voulez-vous ? Tenez !
Que voulez-vous ?
Moi je ne veux pour rien
Au monde plus rien de vous
Pour être à vous
Faut être à moitié fou.



(Serge Gainsbourg)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

maria é bonita






o aprumo do rio é o mar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

tornar-se





uma figura semente
pode ser serpentina, cai do céu.
pode ser uma formiguinha, subindo no pé.
cosquinha dá aquela alegria incômoda,
uma coisa nova e repentina que brota.
pode ser uma palavra, na cara do cara.
você pega e diz: " ".
pode ser mentira essa semente,
porque ela já contém outra coisa.
é melhor não se enganar.
mas é tão bom. posso descobrir só amanhã.
a casca estourou.
a semente da figura já criou ninho em mim.
fico soltando galhinhos pelas calçadas,
no meio de um sorriso, vaza um suspiro-passarinho.
mas quando penso na possibilidade dela,
esqueço o acaso, o azar. caso com meu olhar,
imagino ela toda redonda duma cor de pele quente
pipocando por aí. e se me esqueço,
basta te ver, dentro de mim, que
eu te chamo.
eu sou minha.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

mais perto de onde

estou em quarto crescente. ando sem quartas ou quintas.
e nem engato a primeira. mas não disse que ia devagar, disse?
eu entro com cautela. não gosto de dormir em cama muito mole.
tive a sensação de ser uma janela dentro de outras janelas.

fiquei pensando...
(poesia? não. excesso de pequenas fugas)

(ou simplesmente um pensamento-caramujo):
fui à janela e vi milhões de buraquinhos que pareciam ter o tamanho
da minha mão. achei um desperdício construírem buracos para uma mão.
quanto mais alto um prédio for, menor fica a janela?
então eu prefiro o chão. gosto de sentir que meu pé tem a mesma
chance de ir lá fora que minha mão.
(é realmente muito perigoso eu tirar esse pensamento do esconderijo)

tenho várias amantes. mas, não sei, tenho estranhado tantos enfeites,
lençóis, travesseiros... queria sair andando por aí e só dormir quando não precisar mais.
queria dizer pro meu filho: quanto mais segura, mais me afasto de mim mesma.

puxa, quero aprender. todo dia eu procuro o medo, e procuro saber se estou mais apta para senti-lo. acho que não é de saber. aviso de segurança:
não procure saber onde está.
estou tímida, sabia?
falo baixo, ando devagar, procuro lugares esquivos. quero sorrir
ou chorar numa esquina.
um quarto de liberdade para uma lua sentinela. só olho pra ela se ela quiser.

eu guardei meu amor por você tão fundo tão fundo. mas não é um túnel.
é labirinto. eu gosto de escrever na cama. uma meia-luz acesa. e as palavras
se apagam. queria escrever pra você. mas não é sempre.
me encontre quando estiver cheia.

no meu futuro,
não existirão automóveis ou elevadores. conclua, por favor.
meus olhos coçam. já estou longe demais.
sou uma praça vazia numa madrugada qualquer de uma cidade qualquer.
sou in-popular.
não me perdoe. eu quero amar.

terça-feira, 21 de julho de 2009

estava ensaiando para a leveza.
e para encontrar atrás da leveza essa deusa
da beleza. e, você não sabe... vou contar.



- a vida me esperou. às vezes a vida nos espera. em algum lugar,
na esquina de uma rua, conhecida e desconhecida ao mesmo tempo.

tive a sensação discreta e suave de que a vida é uma companheira.
e não é só companhia. eu e a vida somos acompanháveis. e a gente se escolhe.

- a rua passa e eu fico, escutando a rua que passa. o martelo no vizinho.
será então que a vida é do sentir e não do sentimento?

eu vou ali e já volto.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

pára com isso

hesitei. fiquei mexendo nos papéis ao meu redor.
andando pelos corredores. olhei pro meu pé. pro meu chão.
pensei numa árvore de frutas gigantes. pensei num não-diálogo.
lembrei de como era um alguém. tomei um xícara de café.
vou sair pra rua. ainda faz meio-sol. não, não vou. eu procuro.
e sei que procuro palavras. e elas não vêm.
sabia que eram palavras. não era uma música, nem um livro,
nem uma gota de sangue, nem a cidade. era aqui mesmo neste canto.
elas estavam aqui. aonde eu estou. agora. tive receio da minha reação.
o que encontrar. por que não abro logo esta poesia, ou por que não a largo de vez?
essa agonia era o pressentimento de um simples
despespero de esquecimento.
mas é. a mão se pousa. o pensamento voa.
o horizonte voa.
posso dizer então o que quiser.
farei isso:
viajo além do que (in)vejo.
esqueço o que perco.
perco o que não esqueço.
te perco, mas te tenho.
estou querendo ter algo
que está fora do tempo.

será que são palavras em desuso?
sentimentos obsoletos, existem?
olha, o que sinto agora está fora de moda.
não tem tendência, serve
pra chuva e pro solzão.
será que esse arrepio
é do mesmo vento que bate aí?
bateu?

respirei fundo. (eu vi a forma disso, pensei, por que uma linha é mais comprida que a outra?)
cada espaço tem seu tempo. e seus vazios.
e suas pressões.
queria escrever fora do espaço
mesmo a parede me empurrando.
eu voltarei.
meu quarto nunca me perde.
e eu sempre esqueço que lembro
sempre.

isto tudo
é pra tentar dizer que
eu nunca lembrarei
do quero esquecer.
e também:
a imagem me excede.
o excesso me diminui.

marchinha

Se um dia eu disser que já fui
e ainda não voltei fui buscar uma coisa
perdida por outra coisa, coisa com coisa
pode perder o rabo pra lá ou dar sentimento de brinquedo
sem vírgula perdido por aí no achado vão...

olhei pra você no pensamento e te vi exato,
extrato, passo largo, cada parte. não me lembro
do todo e bem do pouco que ficou. só sei que
ainda te vejo sem buscar. e tem credo na menção.
eu sei que você cabe assim no meu frasear enquanto pontuar.

na pele tanta secura. e continuo longe.
pouso forçado em algum lugar.
têm rachaduras no ar.
fiz um parênteses
a lua cresceu pra dentro de mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

pelos olhos


"O Deus que mora na proximidade do haver avencas
Esse Deus das avencas é a luz
Saindo pelos olhos
De minha amiguinha

O Deus que mora na proximidade do haver avencas
Esse Deus dos fetos
Das plantas pequenas é a luz
Saindo pelos olhos
De minha amiguinha linda
De minha amiguinha"

(Caetano Veloso)




sexta-feira, 12 de junho de 2009

video

agora a noite está chegando e faz morno tempo. 
a gata viaja sozinha pelo universo familiar. outros saem em busca de aventura.
e eu me embrenho. escuto o vizinho e seus barulhos. vou filmá-los, peraí. 
viagem antropofenomenológica. pensei, temos que pensar: um nome.



"pas trop"
ou algo como
"plus qu'un jour"

em francês? 



mais que um dia...


ou mais cinco minutoss.


beijo meu.

terça-feira, 2 de junho de 2009



aleatória:
projétil prolongou o horizonte.
provocou a prudência do provador.
lerda como uma lesma, 
linear como o que derramou. 
é contraditório como o contorno.
abolição. 
me nomeei:
insolada, insolúvel, 
a inspertora do inoxidável. 
o passado se instaura como uma onda.
o presente se ofusca como o sol.
minha órbita risca 
a orquestra do préludio:
vou começar de novo. 


sábado, 2 de maio de 2009

saí descalça e voltei chovendo;
com uma asa embaixo do braço,
engoli o espirro da liberdade e fui dormir.
parei para olhar o deserto,
e uma cidade inteira me engoliu. 
fui atropelada por minha falta de senso.
sem direita e sem esquerda,
fiz um gol no absurdo
e o céu me agradeceu amanhecendo. 
a palavra certa engasgou e virou lágrima.
não tenho dinheiro pra comprar palavra limpa.
uso e reuso as que cabem em mim. 
não compro guarda-roupa. 
não tenho ferro. 
e tenho várias feridas. 
vou passar o amanhã  a limpo.
puxei a cortina do dia,
vou me vestir de mendiga,
vou catar nobreza na rua.
quero viver no impróprio.
embaixo,
 bem embaixo
de onde imperam as ruínas
do Logos.
sem pressa, perdi a hora,
fiquei sem mapa,
e me perdi. 
me dobrarei em mil pedaços, ou mais. 
não contarei, não conterei.
me guardo esta noite numa página em branco.
agora é já amanhã. 

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Les amants du pont neuf






algumas imagens. filme de Leos Carax, de 1991. 

sábado, 18 de abril de 2009

a gota

extrêmulos...
extremulava
extremulicando
extremidades
dextremicementos:
extrangeiros
extrentranhavam
extreminúcias.
extremos.
os pingos de chuva.
duas janelas acesas. 
tric. 
as sombras dos passos na escada chapadas na parede do prédio em frente. 
(e o som aqui condensado).
uma boca que sorri no escuro.
extremo.

quarta-feira, 8 de abril de 2009



Estava quente. Ela já podia olhar sem medo. O homem parado. O homem em noir. Não queria falar. Nem ele. Nem ela. Ele falava sem falar. Talvez por risco da timidez. Talvez por queda da insensatez. O sol ainda estava alto. O sol estava lá. Ela não tinha medo. Guardava uma alegria inexistente. Guardava uma lucidez implacável. Enquanto sorria. E ele estava lá. Ao seu lado. E os pássaros,  era possível ouvi-los. E as flores. E tudo parecia estar realmente lá. Mas nada existia além dessa esperança branca. E um calor nas pálpebras. Pensava na dilatação das coisas. Sem pensar. Ela não pensava. 
- Me espera, ele sussurrou.
Ela já partia. Sem querer ter para onde ir. Ele também não queria dizer. 
- e para onde nós vamos?
Por que as coisas parecem tão leves quando não são? É o seu olhar. 
- Eu não tenho nada para segurar.
- Segure esta flor. 
Ela andava sem olhar pra trás. A cada passo realizava a cor de ses cabelos. Imaginava seu olhar, sua boca, seu olhar e sua boca. E nada disso importava.  Eu preciso atravessar. Preciso atravessar o parque, ela se repetiu. Sem porquê. 
- Por que?, ele gritou. 
Eles não se conhecem. Ele e ela nunca vão se conhecer. Mesmo no absurdo do imprevisível, é preciso atravessar, ela pensou enquanto olhava para uma flor. Rosa e pálida. E como ela é viva e forte. 
Ela voltou. E o abraçou. Um abraço cálido de quem se precisa sem saber. É o grande mistério, ela pensou. Quando é que eu quero mesmo estar sozinha? Não pense, não pense. Não fale, por favor. A mão dele nos cabelos dela, entrando suavemente na sua nuca. Um afago. Ela fecha os olhos. Ela não pode vê-lo. Ela gira o tronco, levando uma mão ao rosto. Um afago invisível. Instante que não pode durar. Eu queria fazer uma homenagem a tudo que eu não tenho e a tudo que eu não quero ter. Estou me misturando. 
- Veja como eu faço isso bem,  mostrando-lhe a face de olhos fechados. 
- Mas você não sabe e nem vai saber. Permaneço misturando. 
Ela ri.  E o olha como se ele fosse puro de alguma pureza da qual ela não pudesse se adivinhar. Apenas entender.
- Mas por favor não me desminta. Eu não poderei acreditar. 
eu não poderei acreditar. Não me fale de sofrimento. É de sofrer. Não me fale. Mas eu não posso dizer. 
Ele canta uma canção. E agora ela abre os olhos. Não cante para mim. O sol ainda está lá. E começa a esfriar. Os dias são longos. Tento permanecer. Estou sempre tentando permanecer.  

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ela queria ficar um pouco mais. Só um pouco mais. E queria mesmo como uma falta de vontade. Porque não queria voltar. Queria ficar, olhando. Olhando. O cansaço lhe atenuava o olhar, os olhos ouviam mais. Parou num café. Escolheu se sentar do lado de fora, mesmo que o vento estivesse forte. Queria poder olhar  a rua e os passantes. O vento passante, insistente. O ritmo dos que passam. Os carros passam. A mulher ao lado fuma um longo e fino cigarro. E fala. Sem parar... passam palavras. O homem era bonito. E a mulher acendia outro cigarro. Sentiu pelo tric do isqueiro. E nada se pensava. A cidade pensa em outro ritmo, quando os postes acendem e o amarelo se inquieta em ser vermelho. Em ritmos. Ele tem o nariz bonito, ela sentiu. Será que eles vão se beijar? Rue Jean-Baptiste Dumay. Sentada na cadeira vermelha, com uma bolsa vermelha e uma bebida vermelha. Tudo impera. Menos que o silêncio. Será que a fumaça esquenta? E a mulher continua falando. E o homem encostado no poste também. E as três mulheres na mesa mais distante também, e riem. Será que falar esquenta? Distraída. Atraída. O amarelo e o vermelho. O caderno aonde se riscam estas linhas também é vermelho. Também. Será que é de novo? Novo de novo. E o vento atravessa a echarpe no pescoço. Sem vontade de gritar. Quando se olha, não tem voz. Como o homem ao lado, que escutava. O casal amarelo e vermelho. E hoje a echarpe é vermelha. De novo. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

fábula para um dia chuvoso


a porta se fechou. ela, em pé, olhava a porta. e só a porta. porque agora estava sozinha.
e, como se naquele pequeno lar, tudo se transformasse em possibilidade, em espaço 
atrás daquela porta. e a chuva que caía abundantemente lá fora, também era o lar. e 
os passos que escutava dele descendo as escadas, também era o lar. e ele era o lar. 
olhando para a porta. tudo era tão possível agora estando sozinha que vivia um medo 
da alegria imensa de poder ser, ali. foi até a janela da cozinha e tentou respirar o cheiro 
da chuva. mas não aquele cheiro. o cheiro de outra chuva. a chuva que caiu um dia 
quando era cirança e via a poeria subindo. aquela chuva que era brincadeira, era piscina, 
era banho, era também o abrigo da família. a chuva. ela sentiu o cheiro da chuva do sertão.
e também era o lar. e agora ela podia chorar. a chuva. a tristeza amiga, companheira. 
a incerteza. e ela chorando olhando a chuva. lembrando de como era olhar a chuva na 
varanda de outro lar, em outro país. sozinha. "deve-se estar sozinha para poder ver
 a chuva" pensava enquanto olhava as janelas dos outros apartamentos. e gostava de
 encontrar, de repente, algum vizinho em seu respectivo lar, fazendo alguma coisa na cozinha. 
"por que as pessoas são tão comuns?" ela pensou.
... e olhava para os lados na rua, para os olhos que não se perdoam, olhava porque 
agora podia só olhar. e encarava as pessoas, devorava as faces. grandes máscaras 
do assombro humano. o cotidiano. ainda chovia. e reparou que agora têm pássaros.
pássaros migradores, disse alguém. e tenta sentir o cheiro do mar e não pode. 
o cheiro do mar está impregnado na carne, não invade, é amálgama. e ele transcende 
às ruínas. tudo isso ela pensava, enquanto a cidade se acendia. e a chuva descansou. 
um sol veio aquecer as faces dos prédios, das calçadas, daquela estátua já dourada, 
daqueles passos ritmados pelo frio. e nenhuma conversa:
eu sei que posso chorar aqui. e desde pequena eu choro muito "sem motivo" dizia 
ao pai que vinha lhe sondar. "eu não sei, acho que porque é domingo. domingo dá 
vontade de chorar, é isso". e ela era muito pequena. e chorava no banheiro. 
ela até riu de pensar que isso sabia fazer muito bem, chorar... e pode ser um
choro de desejo? e agora ela chora sem se perguntar. ela sente. 
"será que amarei amanhã? será que saberei do amor?"
fez o mesmo trajeto ao sair de casa e reviu o homem que vem dormir na
porta daquele prédio inabitado. Há dias que ele não aparecia. E ela fica tão 
curiosa de saber o que ele faz quando não está lá. Quando ele está ali, ele a 
protege. Eles se olham, se vêem, e ela tem a impressão de que eles são 
semelhantes.Ele é um homem que olha.  Boa noite, durma bem, ele disse.
hoje ela quer sonhar. com a chuva, o mar, o beijo curto, 
o beijo-criança-do-homem-feito, o olhar estrangeiro, o mar, 
a pele ardendo, o pé descalço, o pai esquentando a mãozinha,
 a mordida de mosquito... ela não se lembra de nada. a menina. 
mas ela ainda sente a picada. o cheiro do pai, os morcegos na árvore de casa,
 a limonada. os nomes inventados, ela sozinha sonhando com um amor, 
que tinha um nome inventado. ela mesma nunca usava o próprio nome 
quando brincava. e nunca era brincadeira. a vida nunca foi brincadeira. e o silêncio.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

roteiro para um filme-vago ou para um film-vague


um carro parado no meio do deserto. olho para os lados. sinto de perto (uma câmera me filma, sempre, me parece) os lábios racharem. ouço o vento. e só o vento. forte. o vento forte não se cansa de ouvir. forte em mim. uma indecisão angustiante. "não tenho ferramentas para nada disso", eu penso. e não me falta vontade de seguir em frente. de amar em frente. mas tenho pouco combustível. e o vento é frio. as mãos congelam. e tudo isso eu vejo de perto. a areia fina no meio do. aonde? a areia fina que desloca o lugar, coloca o lugar fora do lugar. a areia é fria. e não posso sentir. até um vale lá no fundo do olho, eu vejo de perto. e eu posso consertar? o olho, o sentimento, o momento? após 20 segundos: ando lado a lado, mãos, sorrisos que quase não escuto, palavras que não entendo. estou acompanhada e continuo no deserto. contínuo deserto. eu continuo. e não consigo mais olhar. quero correr e não corro. vejo uma placa. um buraco. um céu. um beijo perdido nu. uma respiraçào incendiária ao meu lado. e vivo sonhando. não é o futuro que me preocupa, quem disse? é o presente, eu disse. ou pensei sem dizer, quase-disse. o tanque está cheio agora. estou saindo daqui. e, ouve o grito. (melhor não ouvir, veja, grito em off, grande plano). ele não é meu. é um grito-sem-dono. (e passa um cachorro ébrio de tantos gritos não ouvidos nem vistos). é um grito sem doma. vai ser gauche na vida. faça alguma coisa que me assuste. mais. e mais. e aind amais. amares. o assombro no fim dessa estrada sem fim. fim.
enquanto arranjava as flores no vaso, lembrei desse episódio. trajis-tória. e enquanto mexia nas flores e via as cenas passando, se desenhando, se enquadrando. tudo não passava de um signo. volumoso. pelicular. e como os signos têm sentimentos... eu pensei. vou guardá-los. e quando as flores murcharem?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

sur-realista.

e quanto vale o desejo do desejo da carne?
(a palavra derivando como possibilidade de dissonância).


estava passeando no linear e,
sempre,
ou quase sempre,
me deparo com o assombro ou
a erupção do vulcão tempo.

e quando o tempo vem nos a-presentear
as sensibilidades e nuances de suas camadas,
assim me aparecem também as palavras.

o tempo de imersidão.
e o mesmo velho tempo de conhecimento.

hoje senti vontade de chamar as pessoas pelo nome.
de me inscrever livre nas pessoas e nos seres.
bom dia, orquídea.
(e a parede me contava um buraco absurdo).

saudade.
e a falta da falta que me faz hibernar do passado e me de-por:
presente. bom dia.

pensei em frases curtas, desenhei orações revolucionárias.
tentando permanecer no instante. e quando, lembrei. lembrando:

estou sendo influenciada.
e quando não estamos?
pausa. espreguiçamento.

lembrei:


tenho uma fragilidade nos ossos
e o calor de um campo de batalha no coração.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

a dança do pato





deslizar
permear
permanecer sobre
irradiar
fisgar
estar junto e separado
avançar e avançar
como recuar?
girar girando
propagar.


giratória
marcha ré
arrière
pescoço
bico duro
pescada
pescagem
amor líquido

a proposta era só
em verbos
mas olhei no fundo
e vi que mexiam
outras coisas
sem ação
só intenção
tensão sem direção
mas



é tão bonito.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"quando eu sofria eu era mais feliz"
me disse seu zé do deserto.
e de lá, percebia o desejo do broto
no olho da janela,
e o broto se desnudava fora
de um ciclo de sofreguidão,
e desbundava,
em matéria de tempo,
a composição coral
do estado em cada ritmo
em cada pétala, em cada vento,
sem floreios para me mentir,
brotejamento de amor
em terrenos baldios.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ao ano

QUANTO TEMPO CABE NESTE INSTANTE PASSAGEM?
quanto pensamento cabe nessa idéia?
quanto tanto tento intento e sambo
e desequilibro e
emotivo emociono
o peito dentro do peito dentro
de dentro e a
repetição
de star estrela
apaga
estiro a corda
fico na ponta do pé
e olho o novo do outro lado
de que lado?
volto. espero. atento.
novas paisagens...
um corpo novo dentro do corpo
que usa
sem país sem língua.

vou criar minha pátria de sentidos
e deslizar na canção do (não-sei-o-que-me-pergunta-sempre)
na geografia do aqui-amanhã
no picadeiro de estar entre,
mais platéia... mais palhaço.
mais faro,
mais claro,
mais torto,
tonturas.

não entendi a piada.
confissão: não sei escrever.
e deixo as palavras-malabaristas
fazerem o show!
palmas. e que venha,
pois ainda vejo nada...
e ainda cabe tanto.


momento de cabência.
vou fazer um pedido.
atravessar.

o tempo o instante a paisagem.
sobre pés mais presentes,
e dedos mais ágeis
e olhos mais sinceros
e coração mais silencioso
onde tudo de nada
cresça
e

nos encotraremos lá.
enquanto existir.
enquanto tiver vontade.