domingo, 23 de novembro de 2008

eternidade


enquanto lavava as mãos
lembrou da carta que estava à espera
sobre a mesa de café,
porque já havia bebido duas xícaras de café
na
busca de entender se era dia ou se era noite,
e pensou sobre a carta e,
lavando as mãos, percebeu que
era o momento de abri-la;
sentada à mesa, "esta cadeira
vai quebrar a qualquer instante, preciso
consertar isso", e a carta singela num
envelope azul escrito à mão,
esperava alguma coisa,
ou estava mesmo de acordo o tempo,
com a chuva e a estação,
por certo que ela abrigava o frio

e acolhia a resolução do escuro,
e na carta endereçada a ela
só havia uma linha escrita no fim
da folha branca e translúcida.

"há cem anos que te espero"

a janela da cozinha trouxe outro ar
e o barulho quieto da chuva
a certeza de um dia incerto
e cinza como cimento
que alimenta a construção
de abrigos tão certos para os sentimentos
mas não sabia se a frase que lia já a pertencia
mas também se a pertencia como pertence ao
outro que a escreveu
e também o porquê da frase se
transformar em uma jornada de passeios
pensantes e deslúcidos por caminhos tão atemporais
de si mesmo
,
mas também chegou a vaguear
pela idéia de ser mulher e jamais ser homem
e o nunca existir entre esssas duas possibilidades;
mas o que é o amor então
mas aí já soube,
e não soube, mas quis afirmar
que o amor existia e que sua qualidade
de aprovaçào no mundo é seu valor de utopia
"será que estou mais inteligente do amor?"
"mas como somos enganados".
"só quando for você, poderei te amar".
personne, pode ser ninguém e e pode ser alguém, ou uma pessoa.
e para mim é persona.
nem sequer conseguia dizer seu nome alto,
e relia o nome escrito à mão no envelope
e não conseguia dizê-lo...
e conseguiu ainda em cem anos de um dia
pegar o metrô,
atravessar a rua e amar a noite
e jantar
e ouvir um chinês tocando um violino
para o metrô vazio. e ele era feliz.
e se embebeu de música silenciosa
vinda de uma caverna,
e aquela frase, o esperar de cem anos,
e imaginou ele pensando ao escrever esta frase
e já não era mais ele,
era tão inalcançável que cria
não poder responder a esta carta.
era um mistério tão denso
que nela morava como sangue.

;
e saboreou o momento
de imagina-lo em ato de pensar
como uma ação imediata,
enquanto ela se estendia em eternidades
para que pudesse margear a intenção do sentimento
e a construção de uma resposta.
como dar uma resposta de cem anos?

...

"há cem anos que te encontro"
(às 17h da tarde).


"há cem anos que quero te encontrar"
(e recebia a madrugada e mais cem anos).