sábado, 16 de fevereiro de 2008


num quarto, uma luz vermelha,
lençóis vermelhos, travesseiros vermelhos,
uma janela bem grande de frente pra cama,
não posso dormir, o mistério me espera, amanhã
será mais frio que hoje, terá sol, e a lua arde lá fora,
bem em cima de mim, sem dó, sem mote, sem nota ou
canção, sim, ouço aqui dentro, não pára de tocar, mas são palavras
discursos necessidades de evasão, amanhã vou emigrar de mim
para um vestidinho florido e um campo iluminado com sol de meio-dia
num continente desconhecido, numa ilha-louca, e encontrarei um homem, ele
se senta ao meu lado, acende um cigarro, e depois se vai, mas deixa um cheiro,
um cheiro de outro amanhã, em outro continente, e lá não há bancos ou estações, não há esperas,
era uma vez nos encontramos mergulhando então e também nào havia vestido, só flores,
aí eu vesti o homem com flores e ele nào falou nada, nem riu, nem chorou, nem se emocionou
mas também já era alguma coisa, ele tinha flores, cada uma tinha um nome que coloquei
mas agora me esqueci e aí eu parti e depois em outro estado, depois desta vírgula, cresci tanto
que tive dor, dor de amor, dor de vontade e nem sabia que essa dor existia, mas era a vontade
me dando beliscões, tive dificuldade de escolher uma rua, qual é o nome desta por favor,
tomei uma cerveja cara porque só tinha esta e encontrei uma criança no caminho e aí
já estávamos subindo uma montanha muito grande, tinha neve no pico, era bonita porque era meio cinza meio verde, e a criança era meio azul, com cabelos muito pretos,
e me perguntou se gostava de brincar de palhaço, achei engraçado dizer brincar de palhaço
porque é como se o palhaço nào existisse antes da brincadeira, bom pelo menos
este não,
ele dormia muito e acordava no meio da noite
cheio de bolas coloridas no corpo e assim tinha que
brincar e se empalhaçar, eram os beliscões
de vontade de rir,
então se jogava no amor do mundo
na multidão e procurava uma senhora
de cabelos bem brancos e batom vermelho que lhe
dissesse,
nào sei o que ela lhe disse
mas sei que sempre que a procurava
ele perdia o nariz de palhaço vermelho
e suava muito, mas nunca lhe perguntei,
mas perguntei ao homem que se sentou ao meu lado
você gosta de brincar de
palhaço
e
a luz do quarto ainda é vermelha
e vejo a senhora flaando sozinha
encontrei
seu batom na esquina
e ouvi o barulho do poste
parecia um mosquito
vou procurar um mosquito:
agora estou num lago, ainda
é vermelho, mas não é quente.