domingo, 30 de novembro de 2008

dimanche

no corpo ébrio
cabem odores
insensíveis.

e a primeira neve
à luz do poste
traz a completude
do absurdo e o
sentido virginal
do riso.

e quando
a manhã é azul,
tudo que urgita
é pensar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

1.

À noite encosto embaixo do sonho

E uma asa noturna me lambe

Sei de formigas tentando fazer caminhos diferentes

Mas elas nunca se chocam.

Porque atrás da noite o olho enxerga.

As águas conversam amores.

E pedra lacrimeja e entorta.

A pedra discursa água e vice-versa.

O pé do tempo é um encanto.

Eu caio de folha, e caio de folha nova.

Minha folha é de vento, mas ela tem peso

De bicho antigo,

Sou folha-de-vento com vertigens

Pra espreguiçamento de bicho.

Tenho um silêncio que inseta em mim

E pica atrás do dia.

Amanheço laranja.

domingo, 23 de novembro de 2008

eternidade


enquanto lavava as mãos
lembrou da carta que estava à espera
sobre a mesa de café,
porque já havia bebido duas xícaras de café
na
busca de entender se era dia ou se era noite,
e pensou sobre a carta e,
lavando as mãos, percebeu que
era o momento de abri-la;
sentada à mesa, "esta cadeira
vai quebrar a qualquer instante, preciso
consertar isso", e a carta singela num
envelope azul escrito à mão,
esperava alguma coisa,
ou estava mesmo de acordo o tempo,
com a chuva e a estação,
por certo que ela abrigava o frio

e acolhia a resolução do escuro,
e na carta endereçada a ela
só havia uma linha escrita no fim
da folha branca e translúcida.

"há cem anos que te espero"

a janela da cozinha trouxe outro ar
e o barulho quieto da chuva
a certeza de um dia incerto
e cinza como cimento
que alimenta a construção
de abrigos tão certos para os sentimentos
mas não sabia se a frase que lia já a pertencia
mas também se a pertencia como pertence ao
outro que a escreveu
e também o porquê da frase se
transformar em uma jornada de passeios
pensantes e deslúcidos por caminhos tão atemporais
de si mesmo
,
mas também chegou a vaguear
pela idéia de ser mulher e jamais ser homem
e o nunca existir entre esssas duas possibilidades;
mas o que é o amor então
mas aí já soube,
e não soube, mas quis afirmar
que o amor existia e que sua qualidade
de aprovaçào no mundo é seu valor de utopia
"será que estou mais inteligente do amor?"
"mas como somos enganados".
"só quando for você, poderei te amar".
personne, pode ser ninguém e e pode ser alguém, ou uma pessoa.
e para mim é persona.
nem sequer conseguia dizer seu nome alto,
e relia o nome escrito à mão no envelope
e não conseguia dizê-lo...
e conseguiu ainda em cem anos de um dia
pegar o metrô,
atravessar a rua e amar a noite
e jantar
e ouvir um chinês tocando um violino
para o metrô vazio. e ele era feliz.
e se embebeu de música silenciosa
vinda de uma caverna,
e aquela frase, o esperar de cem anos,
e imaginou ele pensando ao escrever esta frase
e já não era mais ele,
era tão inalcançável que cria
não poder responder a esta carta.
era um mistério tão denso
que nela morava como sangue.

;
e saboreou o momento
de imagina-lo em ato de pensar
como uma ação imediata,
enquanto ela se estendia em eternidades
para que pudesse margear a intenção do sentimento
e a construção de uma resposta.
como dar uma resposta de cem anos?

...

"há cem anos que te encontro"
(às 17h da tarde).


"há cem anos que quero te encontrar"
(e recebia a madrugada e mais cem anos).

domingo, 16 de novembro de 2008

3.

Tenho agradecimentos para pássaros.

Inclinamentos para insetamentos.

E sofrências para bichanos.

A independência me chama de cadela.

Passei cuspe na palavra usada e ela tomou perfume.

Tem pensamento que abraça em mim e beija

O insano, o profano e o futuro.

O futuro me manda calar a boca.

Mas a boca não tem porta.

E boca que voa, canta pra dentro.

oceano


aprendi
que
desaprender
também
é
uma
aprendizagem.



eu sou aprendiz
de oceano.




queria descrever meu sonho
mas tenho medo de perdê-lo.
mas é vontade tamanho.
estava lá no meio do oceano.
me lembro de um corpo.
de um homem trôpego.
ele dançava submerso.
minha cabeça doía.
doía de grandeza.
não conhecer ninguém é profundo.
e enfrentar a profundidade
é a incerteza de si mesmo.

o oceano é escuro.
isso eu vi.
inventei pra mim que ele
era sujo por isso não podia
entrar. tive medo de entrar no
fundo do fundo.
no infindo.
mas eu entrei.
e conheci um pouco dessa
matéria densa.
o mar é tão sólido.
e pode ser feminino.
la mèr.
não pude permanecer.
mas pra criar tem que permanecer.
a permanência de um instante.
eu desaprendi e me desapeguei
rápido.
porque o oceano é lento.


o oceano é um sonho.
é um homem.
sou eu e um homem
desconhecido.
o mar é o homem de mim.
ao mar sempre.
mas não ao mar de sempre.


descartei o descartes
mesmo sabendo
que não posso deixar
de ser.


fui passear no concreto
e vi postes, lua,
olhos, sorrisos,
cabelos e mãos.
e fui me liquidando.


não há verdade na criação
mas há um prazer de morte.
e não é tristeza.
é simplicidade.



fechei os olhos
e então me vi.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

anteontem

a lua invadiu meu quarto,
abruptamente.

a cama invadiu meu desejo,
abruptamente.

eu fui expulsa do sono,
lentamente.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

outro enleio

há um tempo venho propondo pra mim
a criação de outro espaço-complexo
aqui nesta rede. acho muito intrigante
e mesmo distante (não como uma coisa que liga a outra, mas sim as infinidades de ligações que podem suscitar) uma intervenção aqui. um sistema complexo.
para começar vou colocar aqui a correspondência que estou a começando a manter
com um amigo no Rio de Janeiro, André Bern.
Estamos nos instigando a falar de nossas pequenas imensidões.
Aquelas coisas que a gente sente andando na rua, tomando banho, vendo uma árvore,
olhando pro sol, andando... andar sempre me sugere um mundo.
Enfim pode trocar sensações.
Se quiserem visitar:
outroenleio.blogspot.com

uma imensidÃo
Luisa

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

sábado, 1 de novembro de 2008

a valsa

quando o buraco
abre uma noite,
as cores fazem um baile.

teoria do espaço-tempo-heterocriativo

dois dromedários e um asno
no meio do amarelo.
eu vi a casa sendo invadida de areia.
eu vi os poros exaltando um azul de gelo
e a formação de uma rocha de metal.
o casal passeava pelas montanhas de gelo metálico.
e guardados na caixa amarela de areia, o casal virava
um sonho. um sonho de realidade transparente.
na caixinha de música tocava.
e o casal podia poder se amar
em cima da caixinha de música.
e isso era um filme que passava na janela.
daquela rua aonde passeava uma velhinha
sem-nome-todos-os-dias.

a liberdade vive no pensamento da experiência.
e descobri que a bailarina fugiu para o deserto.
e tudo isso é mentira.
mas é uma mentira tão bonita que ela existe
e vira pintura.
você vê?


se vou,
eu fico aqui onde estou.
e faço a música não parar.