quinta-feira, 20 de março de 2008

viagem

em quadros
paisagem tão verde,
verde de chorar.
e a terra da cor que eu queria me pintar.
hoje entendi a perfeição à velocidade:
era brasileiro e era produto para exportação
era uma paisagem aérea de tão etérea.
eu amo tanto. a paisagem ama também.
estou escrevendo tolices,
reflexo do meu estado de pré-essência.
eu queria mostrar pra alguém,
mas o que eu vi não era de se ver,
era de fazer mistura no olhar,
era um prato típico da doçura de olhar.
verde-de-chorar, azul-sonho e rosa-terra.
eu deveria mostrar,
mas não posso,
nunca poderei,
é um segredo...
na volta eu passo lá.

sábado, 8 de março de 2008

números

apaguei as palavras que eu acabei de escrever,
mas ninguém pode saber, nem mesmo eu.
vou tentar esquecer e inventar em mim um outro
pensamento. os pensamentos em dígitos,
bêbados de numeração e tensão.
tensão de acordar e ser matemática.
ser geometria. gostei dessa opção,
amanhã acordarei e serei um teorema,
ou melhor uma teoria-plus-quântica.
assim não precisarei me entender e perguntarei
a alguém.
...
...
esquece as reticências. não demorei muito a repensar
que na verdade, justamente, bem apertadinho.
o que eu queria era não precisar de alguém.
alguém é tão inconcluso, não cabe em teoremas.
talvez em teorias. mas alguém seria uma hipótese.
vamos falar de produtos.
eu quero um pensamento-produto,
e amanhã terei um fresco
(tive que apagar e reescrever, mas foi uma lerdeza de raciocínio):
amanhã serei um pãozinho quente cheio de raciocínios fermentados.
...


esquece. chega de pãozinhos.
amanhã não serei pequena mesmo.
hoje fui um pouco (quinho).
Abrirei os olhos e estarei como
um cientista certo de sua teoria, antes

de tê-la escrito.

nosssa como estou desconfiada,
acho que não acredito tanto assim nas
leis. na ordem. na cronologia ou
mistificação do pensamento.
mas eu juro que gostaria.


eu acho que é mais díficil
ser descientífica.

sexta-feira, 7 de março de 2008

petit-déjeuner

hoje quer fazer sol.
hoje quero ser alguém,
não tão importante,
alguém como algo
de comer, sim.
alguém não necessariamente necessário,
ma usualmente incrementado:
cheia de aparatos,
vou me emparelhando
e acendo e desligando,
apertando todos os botões.
hoje quero ver como as coisas
funcionam.
hoje, o café da manhã queria ser café da manhã
com suco de laranja, morango, banana e conversa.
hoje o café quis ser conversa.
e a vírgula quis ser ênfase.
hoje eu vou dar mel pras vírgulas.
elas se tornarão abelhas e aglutinarão
as palavras à sua pre-existência.
hoje vai ser lindo.
não vou explicar às abelhas, nào quero me justificar.
deixa a pontuação de cada ser,
deixa o hoje querer.

quarta-feira, 5 de março de 2008

cotidiano

cena 1:
escorrem lágrimas enquanto caminho. mas é de frio.


cena 2:
um senhor que tocava guitarra no metrô parecia um ator
de cinema italiano, mas cantava em inglês. ele fez o casal
ao meu lado sorrir. o monsieur e a madame eram bonitos. ela
tinha grandes olhos verdes e gesticulava em francês. eu quis imitá-la.
eu irei.

cena 3:
fez sol e eu saí de onde estava para fumar e pousar minha face ao sabor do sol.
ao meu lado tinha uma porta grande. de lá vem um homem em cadeira de rodas.
eu quis ajudá-lo mas não precisou. ele veio rapidamente em minha direção. ele correu
sme correr, em rodas, lentamente. olhou pra mim seguro, firme, pretensioso. e eu fiz um
gesto como se perguntasse se ele queria alguma coisa. ele queria alguém pra falar.
eu não entendi sobre o quê. fiquei pensando nele segundos após. depois esqueci.



cena 4:
entraram umas cinco mulheres juntas no vagão em que eu estava.
e o vagão estava cheio. quando o trem partiu, elas cambalearam e desmontaram
em cima de uma outra mulher que estava no canto. eu vi. uma das meninas que empurrou
tornou o rosto e sorriu. a outra demorou um pouco. se preparou para pedir desculpas.
eu vi. ela fez um gesto sombrio ao virar o rosto e quase não olhou para a mulher impressada.
tão logo, disse: excusez-moi. A en-cantada deu um sorriso, parecia sincero, des-encanada. mas em um instante, quando a outra se voltou para suas amigas, ela fez uma careta de criança. eu ri sozinha porque eu vi.

segunda-feira, 3 de março de 2008

primeiros atos



...poderia eu ser atraente sem ser demasiado inocente,
eu não sou mais. eu poderia ter um olhar veemente e
despreocupado, e te acolheria em meus olhos, com mar ao fundo/
... caminhávamos, sem nos saber, estávamos conhecendo o inverso
do que temíamos. já éramos duas almas embriagadas pela vontade de
amar, o amor, o ardor, o calor, a cor, a dor e a arte/
... entao eu estava trivial e você usava óculos, mas você sempre usou.
mas neste dia vi melhor suas sardas. e sardas são tão elegantes/

pausa:

falamos pouco e ouvimos os pássaros. era um verde sujo, um verde
que queria ser amarelo mas não. os velhos gostam de andar. eu gosto tanto de ver os
velhos andarem.


triunfo:
eu estava clara, mas nao estava pensando em certezas.
e você me disse que tinha essa sensaçao, plena, de estar em casa, em outro pais.
eu disse que nao. mas tao logo me surpreendi agindo de uma forma que so faria
em meu lar. tudo porque estou distraida.



cinema mudo:
nos inventamos. estamos num filme antigo
e na radio tocam musicas que detestamos
mas que completam nossa teoria do conhecimento,
do absurdo de ser conhecido.


partimos entao felizes.

... voce me revela um segredo da sua intimidade
masculina e eu acho muita graça. me sinto em casa
sabendo. estou rindo de outra historia, pela noite
de uma cidade inventada que nem conheço.